LIVE: (THAY&MICHELLE) PRÓ-ESCOLHAS VS PRÓ-VIDAS (ROBERTA&MARIANA)-ABORTO É QUESTÃO DE SAÚDE P.!? PT2
Segunda parte da reação ao debate do Spectrum, agora sobre a tese de que o aborto é questão de saúde pública; Ribeiro e Sankey sustentam que o lado pró-escolha erra pelo motivo simétrico ao do lado pró-vida, ao tratar como neutro e meramente técnico um enquadramento que já pressupõe teses metafísicas e éticas não defendidas.
talvez
o trecho sobre razão pública e o problema de McNabb (argumento filosófico como ponte entre razão religiosa e política pública) é o que interessa de verdade a você, inclusive para pensar como um cristão argumenta na praça sem apelar à autoridade da revelação.
- A crítica de abertura é que Thay Vasconcelos apoia a posição no parecer da Organização Mundial da Saúde em vez de argumentar: dado nenhum decide a questão sem um quadro ético prévio que diga o que se está tentando maximizar, menos abortos, mais autonomia da mulher ou proteção do feto.
- Sankey observa que a fala dela pressupõe um bem-estarismo, isto é, que a função do Estado é promover bem-estar, e que isso precisaria ser defendido, além de exigir uma teoria de identidade pessoal (continuidade psicológica, provavelmente) que também não foi apresentada.
- O paralelo é explícito: as pró-vida pressupõem alma infusa na concepção, as pró-escolha pressupõem uma metafísica secular, e nenhuma das duas duplas argumenta pela metafísica que usa, de modo que cada lado só convence quem já concordava.
- O bloco mais interessante é o de filosofia política: contra o apelo de que a fé das adversárias não deveria entrar na discussão, Ribeiro aciona o princípio de razão pública de Rawls e em seguida o problematiza com o volume de Tyler Dalton McNabb na série Cambridge Elements sobre Deus e teoria política, segundo o qual posições de origem religiosa podem ser justificadas por argumentos filosóficos publicamente acessíveis, o que embaralha a separação entre razões religiosas e seculares.
- Ele lembra que esse é um problema de quem aceita autoridade política e defende Estado laico, e não dele, que se declara anarquista filosófico e político, portanto não reconhece legitimidade ao Estado atual.
- Do lado empírico, discutem os números apresentados sobre mortalidade em abortos clandestinos comparados aos legais, e vão ao documento das Abortion Care Guidelines da OMS, lendo a passagem em que limites de idade gestacional aparecem associados a maior mortalidade materna e a impacto desproporcional sobre adolescentes, mulheres com deficiência cognitiva, de baixa escolaridade e sem recursos para viajar.
- Também aparece o argumento de direitos humanos internacionais citado no documento, o de que Estados devem reformar leis para prevenir aborto inseguro, e a leitura de que negar o procedimento por limite gestacional pode contrariar essa exigência.
- Do lado pró-vida, os argumentos reproduzidos seguem a linha da primeira parte, com adoção como alternativa, foco em políticas de prevenção e recusa das exceções hoje legais, incluindo estupro.
- Ribeiro repete os argumentos que considera decisivos e que faltaram ao lado pró-escolha: o princípio do futuro atual de Harman, o violinista de Judith Jarvis Thomson no artigo de 1971 com suas versões modificadas, e o experimento da clínica de fertilização em chamas.
- Como na parte anterior, a discussão é interrompida a todo momento por leitura de doações, travamentos e brincadeiras do chat, e são quase três horas para o material que caberia em uma.
LIVE: (THAY&MICHELLE) PRÓ-ESCOLHAS VS PRÓ-VIDAS (ROBERTA&MARIANA) - O ABORTO É ASSASSINATO!? PT.1
Primeira parte da reação de David Ribeiro e Bruno Sankey ao debate do canal Spectrum entre a dupla pró-escolha (Thay e Michelle) e a dupla pró-vida (Roberta e Mariana), com a crítica central de que o lado pró-vida trata como dado aquilo que precisaria ser argumentado: que o embrião é pessoa desde a concepção.
talvez
a parte de metafísica da pessoa (identidade pessoal, potencialidade, Harman) é ética aplicada feita com a literatura na mão e serve de contraponto ao argumento pró-vida padrão, e a digressão sobre Lúlio e ocultamento divino é o que mais te toca de perto.
- Sankey abre pelo vocabulário: “assassinato” é um conceito espesso, que já embute a conclusão moral, de modo que abrir o debate com essa palavra é assumir de saída a tese que se deveria provar.
- A distinção que organiza toda a discussão é entre vida biológica (qualquer organismo da espécie humana, inclusive gameta ou zigoto) e vida biográfica (a vida de um sujeito de experiências), e o ponto é que só a segunda dá base clara para status moral.
- Ribeiro sustenta que a posição pró-vida depende de uma teoria de identidade pessoal específica, seja um dualismo de substâncias com alma infusa na concepção, seja um hilomorfismo com a alma intelectiva informando a matéria, e que o ônus de defender essa metafísica é de quem a usa, ainda mais quando as debatedoras se apresentam em chave secular.
- Contra o argumento da potencialidade, mobiliza o princípio do futuro atual de Elizabeth Harman, no verbete sobre aborto da Stanford Encyclopedia: o que confere status moral é o futuro efetivo de uma pessoa atual, não a potencialidade de um feto que pode nunca se atualizar, como mostram os abortos espontâneos.
- Sobre o apelo ao batimento cardíaco, responde que ninguém mostrou por que a batida do coração seria propriedade moralmente relevante, em vez da capacidade de ter experiências avaliáveis em primeira pessoa.
- Perguntado sobre seus melhores argumentos, Ribeiro lista os de Harman, as versões modificadas do violinista de Thomson e o experimento mental da clínica de fertilização em chamas, que atribui ao artigo de Michael Sandel sobre implicações éticas da clonagem humana, além do verbete de Eric Olson sobre identidade pessoal.
- Do lado pró-vida, o argumento reproduzido no vídeo é sobretudo retórico e biográfico (a debatedora está grávida de sete meses e meio, ouve o coração da filha), com defesa da criminalização inclusive nos casos hoje permitidos, adoção como alternativa e pena de morte para o estuprador.
- Sankey e Ribeiro apontam também um erro factual da exposição pró-vida, a fala sobre “união do zigoto masculino com o zigoto feminino”, quando o correto seria gametas.
- Há uma digressão longa e valiosa a partir de uma pergunta paga do chat sobre a teoria dos correlativos de Raimundo Lúlio contra o argumento do ocultamento divino de Schellenberg: os dois sustentam que uma bondade essencialmente comunicativa, como a de Lúlio, tende a piorar o problema, porque faria esperar mais comunicação divina do que se observa.
- Dessa digressão sai a melhor tese metodológica da live: alegar que Tomás, Escoto ou Lúlio “já refutaram” um argumento contemporâneo só vale depois de traduzir aquele argumento para o vocabulário analítico atual e enfrentar as objeções publicadas.
- O formato é de reação ao vivo com transmissão instável, leitura de doações no meio dos argumentos e piadas do chat, o que dilui bastante as duas horas e meia.
LIVE: MATHEUS BENITES FALANDO BESTEIRAS SOBRE REALISMO MORAL!? OS ARGUMENTOS EM FAVOR DO REALISMO!
Live de mais de três horas em que David Ribeiro e o convidado Bruno Sankey, doutorando em filosofia pela UFU com período em Oxford e pesquisador de metaética, reagem ao vídeo em que Matheus Benites anuncia sua mudança do realismo moral para o emotivismo, e sustentam que a caracterização das posições feita por ele está errada já na largada.
sim
mas só a primeira hora, porque a exposição do mapa da metaética por Sankey e a discussão sobre debunking evolutivo das intuições (Wielenberg, Huemer, Greene) é o material de filosofia da religião mais denso que apareceu no radar nesta semana, e casa com o que você trabalha em teologia filosófica.
- A primeira correção é sobre o próprio mapa: Benites define realismo moral como a tese de que há fatos morais abstratos, mas isso descreve apenas o não naturalismo metaético, e não o realismo naturalista (à la Peter Railton) que ele mesmo defendia antes.
- Sankey reorganiza o campo com clareza didática: a divisão central da metaética é semântica, entre cognitivismo (juízos morais expressam crenças que podem ser verdadeiras ou falsas) e expressivismo ou não cognitivismo (expressam atitudes, emoções, planos ou comandos), e dentro do cognitivismo é que se distinguem teoria do erro, subjetivismo e objetivismo.
- O ponto forte da correção é que a diferença entre realismo e emotivismo não é genética: dizer que nossas crenças morais vieram da evolução ou da emoção não decide nada, porque a disputa é sobre o que o juízo moral expressa, não sobre de onde ele veio.
- Eles antecipam que o argumento de Benites se apoiará na parcimônia, no argumento da estranheza de Mackie e na guilhotina de Hume, e tratam esses três como insuficientes para derrubar o realismo.
- O caso positivo apresentado é intuicionista: partem de intuições fortes como a de que torturar bebês por diversão é errado, e discutem quais intuições resistem a explicações puramente evolutivas, tratando as que não são explicáveis assim como epistemicamente mais confiáveis.
- Mobilizam literatura específica e verificável: o confiabilismo morfológico de Erik Wielenberg em Robust Ethics, o artigo de Michael Huemer de 2016 contra os céticos debunkers, e as objeções experimentais de Joshua Greene e Jonathan Haidt, que Wielenberg tenta acomodar sem abrir mão do estatuto positivo das intuições.
- Contra o argumento do desacordo moral, Ribeiro invoca o estudo publicado na Current Anthropology em 2019 por antropólogos de Oxford, com sete regras morais presentes universalmente em sessenta sociedades, e observa que isso motiva ao menos objetivismo moral, ainda que não prove realismo.
- O trecho do vídeo comentado traz também a exposição de Benites sobre o novo realismo de Markus Gabriel (Ética para tempos sombrios), com a lista de “obviedades morais” e propriedades boas, más e neutras nos eventos, além do panorama histórico que vai de Principia Ethica, de G. E. Moore, ao realismo de Cornell (Sturgeon, Boyd, Brink).
- No bloco final, que Ribeiro anuncia desde o início como o de crítica à postura do adversário, ele documenta um erro de leitura de Benites num debate anterior: ao objetar o argumento ontológico, teria citado um autor como crítico do argumento quando o autor, no mesmo trecho, rejeita a objeção da ilha perfeita de Gaunilo.
- O tom cobra caro: apesar de prometer que não haveria ataque pessoal, Ribeiro encerra chamando o adversário de analfabeto funcional e dizendo que não consegue mais ter caridade com ele, o que estraga uma discussão que até ali estava tecnicamente boa.
- A live é caseira e cheia de ruído (problemas de áudio, transmissão reiniciada, leitura de doações ao vivo, agradecimentos), e termina anunciando outra live no mesmo dia sobre ética do aborto.
LIVE: ORIENTAÇÃO MARXISTA CONTINUA ERRANDO AO RESPONDER BERTOCHE!? MACHADADA DEU ERRADO? - PT.2
Continuação da reação à resposta de Gustavo Machado a Bertoche e Krepe, agora na parte propriamente metafísica, em que Ribeiro sustenta que Machado erra o alvo por não perceber que a objeção era metaontológica, sobre univocidade do ser, e não uma tese sobre redução do múltiplo ao uno em Aristóteles.
talvez
mas com alvo certo: o trecho sobre univocidade do ser e quantificação existencial é exatamente o terreno da disputa entre analogia tomista e univocidade escotista, e ver um materialista ser cobrado por pressupor univocidade rende para teologia filosófica.
- Machado defende a leitura padrão de que Aristóteles, ao contrário de Platão, apreende o universal a partir do particular: o universal não é substância, não subsiste separado, existe nas coisas e por meio delas, e a ciência só é possível do universal, não do indivíduo tomado isoladamente.
- Ribeiro traduz isso para o vocabulário analítico como princípio de instanciação, lembrando que é posição viva na metafísica contemporânea, com David Armstrong tratando leis da natureza como relações entre universais aristotélicos instanciados.
- Ele acrescenta que a própria oposição Platão-Aristóteles é discutível, citando a interpretação de Lloyd Gerson, para quem as formas e os universais teriam papéis explanatórios distintos (o problema do um sobre muitos, de um lado, a possibilidade de predicação universal, de outro), e observa que Matheus Fugita e outros no Brasil defendem leitura parecida.
- O núcleo da crítica é que a objeção de Bertoche era metaontológica: a pergunta é se é possível predicar univocamente o ser tanto do princípio fundacional quanto do que dele depende, e Machado responde como se fosse uma tese sobre redução da multiplicidade.
- Daí Ribeiro tira o ponto mais interessante da live: o próprio materialismo imanentista de Machado depende de uma concepção univocista do ser, aquela em que existir é o que o quantificador existencial genérico captura, na linhagem de Frege, Russell e sobretudo Quine, e essa dependência não é examinada por ele.
- Ao ser perguntado no chat pela própria epistemologia, Ribeiro se declara conservador fenomênico e fundacionalista não clássico: crenças perceptuais, morais, introspectivas e mnemônicas são justificadas prima facie pelas aparências, salvo derrotadores, e nomeia Michael Huemer, Blake McAllister, Chris Tucker e outros da mesma família.
- Também repõe do lado dele a distinção metafilosófica da parte anterior, de que método adequado ao objeto não é patrimônio do marxismo, e insiste que Machado se move com excesso de confiança em terreno de metafísica analítica que não frequenta.
- A live é confessadamente improvisada: começa com duas ou três pessoas assistindo porque ele não programou a transmissão, e ele avisa que vai parar às duas e meia da manhã.
- O ritmo é o mesmo das outras: leitura de doações no meio dos argumentos, pausas técnicas e comentários sobre desafetos, com o material aproveitável concentrado na primeira meia hora.
LIVE: ORIENTAÇÃO MARXISTA TENTA REFUTAR BERTOCHE E KREPE! - ELE CONSEGUIU!? - PT.1
Ribeiro reage por quase quatro horas à live em que Gustavo Machado, do canal Orientação Marxista, responde às críticas de Bertoche e Krepe ao seu vídeo sobre a gênese da metafísica, e sustenta que Machado repete com outras palavras exatamente o argumento genético de que foi acusado, em vez de formular o argumento desmascarador que salvaria a tese dele.
talvez
e por um motivo que não é o marxismo: a distinção entre falácia genética e argumento desmascarador bem formulado é exatamente a que decide o debate sobre explicações evolutivas ou psicológicas da crença religiosa, e aqui ela aparece com a literatura certa na mão.
- O material de origem é a live semanal de Machado, autor de Marx e a filosofia: o capital como crítica metafísica, que enumera sete argumentos centrais do vídeo de Bertoche, traduz cada um e comenta em ordem.
- A objeção de Bertoche é de falácia genética: reconstruir a origem histórica de uma doutrina não demonstra sua falsidade, e ele faz questão de aplicar a regra simetricamente, recusando invalidar o marxismo por ter nascido na Europa industrial do século XIX.
- A defesa de Machado é que ele não pretende mostrar a falsidade da metafísica pela gênese, mas que as questões metafísicas só fazem sentido dentro de um dado contexto social.
- Ribeiro responde que essa é a mesma tese reescrita, porque a conclusão sobre irrelevância epistêmica continua sendo extraída da identificação das condições históricas de surgimento, e é aí que ele faz o serviço mais útil da live.
- O serviço é indicar o que Machado deveria estar fazendo: formular um argumento desmascarador propriamente dito, no formato dos argumentos etiológicos e genealógicos da filosofia analítica, com objeções de isolamento e desafios de confiabilidade, isto é, mostrar que o mecanismo causal que produz as crenças metafísicas é não confiável quanto ao domínio em questão.
- Ele situa esse tipo de argumento na linhagem de Marx, Darwin, Freud e Skinner, e observa que é exatamente a estrutura usada hoje contra a moralidade, a religião, o livre-arbítrio e até a matemática, o que dá à disputa um alcance bem maior que o marxismo.
- Numa segunda frente, acusa Machado de deslizar entre validade e utilidade ao falar da lógica aristotélica, apontando que algo ser útil não o torna verdadeiro, e que a confusão fica pior se ele mantém uma concepção realista de explicação.
- Machado nega que o marxismo tenha filosofia da história, lógica geral, sistema universal ou método anterior ao objeto, insistindo que o método de Marx é inseparável do conteúdo e que Marx só investigou o capitalismo.
- Ribeiro rebate em dois tempos: que método adequado ao objeto é lugar-comum de metafilosofia, aceito por qualquer analítico e discutido em The Philosophy of Philosophy de Timothy Williamson, logo não distingue o marxismo; e que negar filosofia da história em Marx é posição de escola, controversa entre os próprios marxistas.
- O tom é de reconhecimento parcial com irritação: diz que Machado teria o direito de palpitar em temas fora da sua especialidade se não fosse tão categórico, e classifica a postura como pretensiosa.
- São quatro horas de reação a uma live alheia, com leitura de doações e digressões, e o argumento aproveitável cabe em vinte minutos.