Joe Schmid, doutorando em filosofia em Princeton e por anos crítico público do teísmo e do catolicismo, anuncia sua conversão (ele prefere "reversão", já que foi criado católico) e narra o caso cumulativo que o levou até lá: uma base de argumentos de contingência que nunca abandonou de todo, um meta-argumento de unificação em favor do teísmo, e sobretudo um volume de evidência de milagres que passou a julgar inexplicável sem postular uma conspiração em cascata, com o detalhe decisivo de que esses milagres lhe pareceram indexados a doutrinas especificamente católicas.
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é o vídeo mais relevante do radar em muito tempo para você, porque põe em cena, em primeira pessoa e por um filósofo analítico competente, exatamente a arquitetura de caso cumulativo bayesiano do seu terreno (contingência, ajuste fino, consciência, conhecimento moral) e a converte em argumento por Roma; vale acompanhar a série anunciada e, se der, escrever a resposta protestante ao elo que vai do milagre ao dogma, que é onde o argumento dele se sustenta ou cai.
O que foi dito
- A perda da fé, para situar o ponto de partida. Criado em casa devota e em escola católica do jardim ao 12º ano, teve o primeiro abalo na 7ª ou 8ª série ao aprender evolução, resolvido pela leitura de Francis Collins e do BioLogos e por passar a ler Gênesis como gênero mitopoético com elementos históricos e teológicos; o abalo que não se resolveu veio no fim do 9º ano, ao refletir sobre a brutalidade do processo evolutivo, centenas de milhões de anos de animais se dilacerando, que não conseguiu conciliar com um Deus onibom, onipotente e onisciente. Consumindo debates (William Lane Craig de um lado, Sam Harris, Richard Dawkins e Daniel Dennett do outro), perdeu a fé por volta do 10º ano e se declarou ateu e naturalista.
- A primeira reversão parcial, de ateu a agnóstico. No verão antes do último ano do ensino médio topou com o canal Worldview Design, de Josh Rasmussen, que então publicava com Alexander Pruss o livro Necessary Existence, e descobriu os argumentos de contingência contemporâneos. Escreveu ao autor, manteve correspondência por e-mail o ano inteiro e concluiu que havia julgado prematuramente a questão; passou a agnóstico, estado que durou estável até a pós-graduação.
- A engrenagem do caso, primeiro nível: o meta-argumento de unificação. No primeiro e no segundo ano de doutorado passou a ver o teísmo (a realidade fundamental como perfeição ilimitada) como hipótese simples, coerente, não arbitrária e elegante que, ao mesmo tempo, oferece explicação unificada de um conjunto vasto e diverso de dados que as hipóteses rivais explicam de modo fragmentado, explicam mal, ou tomam como fatos brutos. A forma do argumento é essa dupla: simplicidade de um lado, poder unificador do outro.
- Os dados empilhados, na ordem em que ele os empilha. Existirem leis da física; essas leis terem constantes com faixas compatíveis com a vida; os valores dessas constantes caírem em faixas estreitíssimas; as leis casarem com o conteúdo do universo de modo a produzir evolução temporal; surgirem sujeitos conscientes (é imaginável um mundo fisicamente idêntico ao nosso sem consciência); o pareamento psicofísico ser fortuito a ponto de produzir agência racional, relações significativas, virtude, fruição e experiência estética, quando a esmagadora maioria dos pareamentos concebíveis não produziria nada disso; haver conhecimento moral, difícil de explicar no naturalismo porque ali os fatos morais não explicam os juízos morais; haver conhecimento a priori; haver experiência religiosa em muita gente; e haver beleza saturando o mundo. O ponto é o custo acumulado: cada item exige do ateu mais uma coincidência postulada em cima da anterior.
- Por que isso ainda não bastava. Ele diz explicitamente que não foi até o teísmo porque as barreiras continuavam de pé, com o problema do mal à frente. O vídeo não resolve essa barreira por argumento direto em momento nenhum; ela é contornada mais adiante, e é esse contorno que sustenta o resto.
- O ponto de virada, a evidência de milagres. No segundo ano de doutorado começou a ser inundado por relatos que julgou de alto calibre. Começou pelas aparições de Nossa Senhora de Zeitoun, vistas por centenas de milhares de pessoas e acompanhadas de curas documentadas, e pelas entrevistas de Cameron Bertuzzi com psiquiatras, exorcistas e ministros de libertação sobre fenômenos demoníacos presenciados em circunstâncias perceptivamente favoráveis, com múltiplas testemunhas: quedas e saltos instantâneos de temperatura na sala, objetos atravessando o ambiente, mudanças súbitas de estrutura facial, levitação. Resistiu por bastante tempo, e reconhece que suas explicações naturalistas eram improvisadas, sem evidência independente, e exigiam supor que dezenas de pessoas mentiam ou se enganavam em conjunto.
- O critério de qualidade que ele impõe à evidência. Faz questão de separar o material que o convenceu do testemunho devocional fraco: não é o tipo orei e minha dor de cabeça passou, e sim vídeos, fotografias, radiografias e análises laboratoriais cegas. Cita laudo de tecido miocárdico em sofrimento encontrado em hóstia sobre a qual um sacerdote católico orou, remissão instantânea e permanente de esclerose múltipla avançada combinada com pulmão reexpandido e recuperação da visão, e o dossiê de canonização de um homem com pé torto congênito bilateral documentado em fotos de infância e testemunhos, com radiografias posteriores mostrando as pernas retas.
- O salto que faz o caso ser católico, e não apenas teísta. Aqui a cadeia se fecha para ele: os milagres não seriam genericamente sobrenaturais, e sim doutrinariamente indexados. Fátima traz o pedido de consagração da Rússia ao Imaculado Coração e a promoção do rosário, cujos mistérios incluem Assunção e Coroação; em Lourdes, Maria diz a Bernadette Soubirous, em francês, “eu sou a Imaculada Conceição”, dogma que só Roma define, e o local concentra a maior série de curas medicamente documentadas da história; e os milagres eucarísticos ocorreriam apenas com sacerdotes católicos, simulando exatamente a mudança ontológica que a doutrina afirma. A conclusão dele é que “parece que Deus está saindo do seu caminho para pôr o seu selo de aprovação em doutrinas distintamente católicas”.
- Padre Pio como caso-limite e gatilho final. Em fevereiro deste ano sentou quatro horas com Ethan Muse (grafia incerta) para examinar os carismas de Padre Pio: laudos médicos imediatos descrevendo a palpação das mãos e dos pés, um médico relatando vazio palpável entre as duas faces da mão, separado por membranas finas, outro descrevendo perfuração completa a ponto de ler através dela; cinco décadas de estigmas vistos por multidões, fotografados e filmados, e fotos do dia da morte sem cicatriz alguma; odor de santidade que impregnava salas e relíquias por anos; termômetro de mercúrio estilhaçado ao medir sua temperatura e termômetro de banho registrando 125 graus. Foi essa conversa, diz ele, que o convenceu intelectualmente.
- A forma final do argumento é probabilística e prudencial. Resume o efeito acumulado dizendo que “Parece mesmo que o universo estava conspirando para fazer parecer que Deus existe”, e formula a decisão em termos de aposta: “Eu simplesmente não estava disposto a apostar a minha alma não apenas numa conspiração isolada, mas numa conspiração de conspirações”. No dia seguinte à conversa fez exame de consciência cobrindo uma década fora da fé, e no dia posterior a confissão geral.
- Como as objeções remanescentes caem, e este é o ponto que merece exame. Ele tinha objeções ao inferno, à Bíblia, ao ensino moral da Igreja e ao magistério. A saída não foi refutá-las uma a uma, e sim absorvê-las na mesma hipótese unificadora: se o catolicismo é verdadeiro, não é surpreendente que suas intuições morais estejam sistematicamente desviadas. O movimento é elegante e perigoso ao mesmo tempo, porque uma hipótese que explica também o desacordo com ela mesma deixa de poder ser desconfirmada pelas intuições que antes contavam contra ela, e é assim que o problema do mal, o que de fato o tirou da fé aos quinze anos, some do argumento sem nunca ter sido respondido.
- A metade afetiva, que ele recusa separar da intelectual. Insiste que conversão é mudança de coração, não só de mente. O que moveu o coração foram histórias de santos: Maria Goretti, morta aos onze anos com catorze facadas por resistir a Alessandro Serenelli, perdoando-o no leito de morte e dizendo querê-lo consigo no paraíso; Serenelli, na prisão e cheio de ódio, sonhando com ela lhe entregando catorze lírios brancos, um por facada, acordando transformado, confessando o crime e hoje com causa de canonização aberta. Somam-se Maximiliano Kolbe, Damião de Molokai e a figura de Cristo nos Evangelhos, com sua autoridade e seu chamado ao amor radical, ao perdão e ao autossacrifício.
- Experiências quase religiosas. Relata sensações recorrentes, em ondas, na academia, de que algo lhe comunicava “você poderia ser um santo”, sem voz audível, acompanhadas de convicção de pecado. Descreve o conjunto como um assalto frontal de Deus, e localiza aí a passagem do “oh, não” diante da evidência para o “isto é belo”, que é o que chama de mudança de coração.
- O que vem do canal. Anuncia mudança de rumo: continuará com filosofia geral ocasionalmente, mas o foco passa a ser argumentar por teísmo e catolicismo, com um caso abrangente de várias horas já a caminho e uma série planejada (argumentos pelo teísmo, resposta aos argumentos ateus, caso miraculoso, caso não miraculoso, respostas a objeções de ateus, teístas genéricos, protestantes e ortodoxos, e crítica a outras religiões). Na segunda-feira sai a entrevista presencial com Matt Fradd, e outras gravações presenciais na sequência.
- O que o vídeo não faz e vale cobrar da série. Não há aqui nenhum tratamento do lado protestante: a resposta óbvia é conceder o sobrenatural e negar a indexação doutrinária (milagre não é oráculo, e a inferência do prodígio à dogmática é o elo mais frágil da cadeia), e ela sequer aparece como objeção a enfrentar. Também não há discussão do princípio de seleção da evidência, isto é, por que dossiês de canonização católicos, que existem em volume porque a instituição os produz e cataloga, formariam base amostral comparável à de tradições sem esse aparato.