Tyler Staton, pastor da Bridgetown Church em Portland e livre do câncer há cerca de um mês depois de dois anos de remissão, sustenta que o diagnóstico não mudou sua teologia do sofrimento, e sim o modo de explicá-la: Deus ora remove o sofrimento, ora o redime, e a principal objeção contemporânea ao cristianismo deixou de ser o sofrimento e passou a ser a exclusividade de Cristo.
talvez
porque o conteúdo é pastoral e não avança tese teológica nova, mas duas peças valem para o Bruno: a leitura do Sábado Santo como lugar permanente da vida cristã, que casa com o "já e ainda não", e a tese de que a objeção dominante hoje é a exclusividade de Cristo, não o sofrimento, tema que toca diretamente a questão do exclusivismo na tradição dele.
O que foi dito
- Staton conta que reescreveu, durante a quimioterapia, o capítulo sobre sofrimento redentor de “The Familiar Stranger”, que estava prestes a ser publicado, sem alterar nenhuma tese teológica e mudando toda a explicação, que ficou mais branda e passou a responder a outras perguntas.
- A fórmula que oferece é que Deus lida com o sofrimento de dois modos, removendo ou redimindo, e que ele próprio, tendo a escolha, preferiria manter a dor e a formação espiritual que ela produziu a perder ambas; ressalva de imediato que essa resposta não vale diante da morte, que chama de injustiça última e fora do desígnio de Deus, e que a ninguém diante de um caixão ocorre dizer que as coisas deviam ser assim.
- Pressionado sobre o caso de quem perde um bebê de três semanas, recusa aplicar ali a lógica formativa e responde apenas que Deus redime essa história morrendo, de modo que ela não é o fim da história de ninguém.
- Diz que conhecia bem o Salvador triunfante e passou a conhecer o servo sofredor, apoiando-se em Filipenses 3:10 (conhecer o poder da ressurreição e a comunhão dos sofrimentos) e na coexistência dos dois títulos já nas profecias messiânicas.
- Desenvolve o Sábado Santo como padrão bíblico: há muitas histórias de três dias no Antigo Testamento (Jacó, José, Ester), e a pergunta que interessa é por que existe o dia intermediário; a resposta é que a vida cristã inteira se passa no Sábado Santo, no “já e ainda não”, e que a espera é onde Deus faz o trabalho mais profundo, o que ele conecta à meia-idade e à dificuldade de amar bem quem se ama mais, citando Ronald Rolheiser.
- Sobre cura, é explicitamente carismático em teologia e afirma nunca ter orado pela própria cura milagrosa, por ter sentido na oração a certeza de que atravessaria o câncer sem morrer; acolheu quem quis orar assim por ele, porque não tem leitura infalível da voz de Deus, e distingue entre Deus não ter querido o câncer e Deus usar para o bem o que o inimigo destinou ao mal.
- A imagem que usa para a pergunta de por que uns são curados e outros não é a do bolo: a Escritura dá os ingredientes da cura, não a receita, e Jesus cura de formas incompatíveis entre si (cospe na terra, cura à distância, cura pela fé dos amigos, cura apesar da falta de fé), de modo que não existe método.
- Afirma que a oração muda situações, sob pena de se ter de crer que Deus agiu de um jeito durante quase toda a história e mudou depois de dar um livro que boa parte do mundo ainda não acessa; e que o modo relacional e lento de Deus renovar a criação é melhor que o eficiente, cujo exemplo é o dilúvio, que não resolve o problema interior.
- Sobre saúde mental, adverte contra os dois erros simétricos, tratar todo problema psicológico como espiritual (raiz histórica do abuso espiritual) e supor que Deus não se envolve no psicológico; lembra a “scanxiety” cunhada por Tim Keller e redefine confiar em Deus como não esperar o resultado desejado nem fingir indiferença, mas reconhecer o báculo do pastor do Salmo 23 no vale.
- Diagnostica a diferença entre EUA e Reino Unido: nos EUA há alta de espiritualidade, mas não cristã, e sim oriental e nova era, com a exclusividade como pecado cardeal, além do enredamento da igreja americana no nacionalismo, que ele aponta como causa de não haver ali o “quiet revival” britânico; cita Martin Luther King como o modelo de esperança cristã que renuncia à retaliação.
- Sobre dúvida, sustenta que ela se disfarça de problema intelectual mas quase sempre nasce de decepção, do descompasso entre a história que se crê e a que se vive, e lê Tomé notando o intervalo de oito dias: Deus não tem pressa de absolver a dúvida; um terço dos salmos é lamento e nem todos terminam resolvidos.
- Para quem quer investigar, recomenda ler os evangelhos começando por Mateus ou João e orar a Jesus; defende que o argumento estético ganhou peso porque a cultura passou do “me diga” ao “me mostre”, e aponta C. S. Lewis como exemplo, com Nárnia funcionando como o maior apelo evangelístico que ele escreveu.