David Ribeiro e o convidado Bruno Sankei (doutorando em metaética, UFU/Oxford) reagem a um debate do canal Espectro entre dois ateus de esquerda (Misael Lima, do Misa Maria, e Michelle) e dois cristãos de esquerda (Felipe Camba, teólogo mineiro, e André Castro), avaliando a tese ateísta de que enquanto houver religião com texto sacralizado haverá fundamentalismo, e concluindo que os ateus se saíram melhor.
talvez
a distinção ateísmo psicológico/proposicional, as críticas ao economicismo marxista sobre a questão LGBT e a nota sobre Espinosa e a história do fundamentalismo têm valor para o Bruno em filosofia da religião, mas o vídeo é longo (4,6h), reativo e cheio de ruído verbal, então rende no máximo uma análise avulsa, não uma sessão teológica.
O que foi dito
- Misael Lima abre o debate original defendendo que enquanto houver cristianismo (ou qualquer religião com texto sagrado tratado como revelação divina e não questionável) haverá fundamentalismo, porque sempre surgirão leituras literalistas que produzem preconceito, e cita o islamismo como paralelo.
- Bruno Sankei faz a única contribuição historicamente sólida do lado do vídeo ao situar o termo “fundamentalismo” como algo que nasceu positivo no início do século XX no Seminário de Princeton (cita Warfield, Charles Hodge), reação à crítica bíblica que introduziu a inerrância bíblica inclusive em matéria científica (criacionismo, design inteligente).
- Bruno corrige a alegação cristã de que existiram “2000 anos sem fundamentalismo”, distinguindo o fundamentalismo específico do século XX (inerrância contra a ciência moderna) de um fundamentalismo em sentido amplo (apego dogmático a um texto infalível) que já existia antes, atribuindo a Espinosa (Tratado Teológico-Político, com o exemplo de Deuteronômio 32 não poder ser de Moisés) a origem da leitura acadêmica da Bíblia.
- André Castro, editor da revista Zelota e da Boitempo, autor de “A luta dos deuses” e de um livro sobre o povo brasileiro, e Felipe Camba (o teólogo mineiro) defendem a linha da teologia da libertação e vinculam o fundamentalismo ao Iluminismo, opondo o método histórico-crítico ao método histórico-gramatical, análise que Bruno considera imprecisa por confundir “ser histórico” (trivial) com “ser iluminista”.
- Discute-se se a ideia precede a prática (crítica marxista aos idealistas alemães, Marx na Ideologia Alemã contra Hegel), com Bruno e o teólogo mineiro convergindo que a separação rígida entre teoria e prática é o problema, invocando “mundivência” e as crenças murianas de G. E. Moore contra o condicionamento social total das crenças, que Bruno julga tese marxista falsa.
- Debate-se textos bíblicos usados para escravidão (Douglas Wilson e batistas do Sul) e pena de morte a homossexuais (Levítico 20.13, genocídio em 1 Samuel 15), argumentando os cristãos progressistas que tratar a Bíblia como documento histórico falível libertaria dessas leituras.
- Michelle apresenta o que Bruno considera o melhor lance do debate: contraexemplos à tese de que a revolução socialista supera a opressão, contrastando Cuba (que reconheceu o erro das UMAP e mudou) com a Rússia (que classificou o movimento LGBT como terrorista) e países escandinavos capitalistas hoje tolerantes, mostrando que o modo de produção não garante emancipação LGBT; Bruno reforça com Paco Vidarte (“Ética marica”/”bicha”) e a necessidade de um componente ético que o marxismo economicista não fornece.
- Bruno desmonta o mito de que ateus são majoritariamente naturalistas e cientificistas (a maioria dos filósofos analíticos é ateia sem endossar cientificismo), e trabalha com Michelle a distinção entre ateísmo psicológico e proposicional, citando Paul Draper (“Atheism and Agnosticism”, Stanford Encyclopedia, 2017/2022) e a distinção ateísmo global/local como superior a forte/fraco.
- Rejeita-se a fala de André de que o ateísmo seria uma metanarrativa utópica de progresso, e Bruno defende que a hipótese teísta monoteísta tem condições de falseabilidade reais (problema do mal) que a desanalogam da bule de chá de Russell ou da “banana em Urano” de Michelle.
- No encerramento, discute-se a concepção monoteísta de Olodumaré na religião iorubá (paralelo com correntes monistas do hinduísmo) para relativizar o monoteísmo como eurocêntrico; Bruno e David concluem que os ateus venceram e criticam a teologia da libertação por esvaziar categorias teológicas (“reino de Deus” virando apenas “sociedade justa”), a ponto de a religião parecer floreio dispensável.