Live de quase quatro horas em que David Ribeiro e o convidado Bruno Sanke (grafia incerta, canal Bruno SK, psicólogo e doutorando em filosofia pela UFU com período em Oxford) reagem ao vídeo em que Matheus Benites defende o emotivismo moral. A tese dos dois é que Benites não enfrentou os argumentos apresentados a favor do realismo moral, apoia-se numa leitura contestável de Hume e sustenta alegações sobre o que as pessoas querem dizer com juízos morais sem qualquer base empírica.
talvez
o conteúdo metaético é denso e bem referenciado, e três coisas servem ao Bruno em outros contextos: os cinco critérios de Huemer para avaliar intuições, a distinção tripla entre desacordo de princípio, de fato não moral e de aplicação, e o problema Frege-Geach exposto com exemplos claros. Contra, quase quatro horas de formato react, com trechos longos de leitura de chat e uma disputa pessoal que contamina a parte final, de modo que só compensa se ele quiser o mapa da metaética contemporânea, não como discussão sobre teísmo.
O que foi dito
- Primeira objeção, de método: Benites afirma que ao dizer “isso é errado” a pessoa apenas relata um fato e expressa desaprovação. Sanke responde que essa é uma alegação sobre metaética popular e exige estudo de filosofia experimental, não introspecção.
- Cita em contrário o estudo de Sousa e colegas (2021) sobre casos de ação danosa, no qual os falantes demonstram compromisso com uma condenação válida independentemente das atitudes de quem quer que seja, o que favorece leitura realista da linguagem moral ordinária, ao menos nesses casos.
- Sanke expõe o próprio mapa da metaética, que ele organiza pelo eixo cognitivismo e não cognitivismo em vez do eixo realismo e antirrealismo de Huemer ou do descritivismo e não descritivismo de R. M. Hare, passando por teoria do erro de Mackie, subjetivismo, objetivismos naturalistas e não naturalistas, intuicionismo, posições híbridas e variedades de quietismo.
- Apresenta a tese que defende no doutorado, uma posição híbrida: o juízo moral expressa simultaneamente uma crença, passível de verdade ou falsidade, e um conteúdo conativo de emoção e prescrição. O ponto forte é que ele sustenta objetividade também no lado conativo, existem emoções objetivamente apropriadas diante de certos atos, e o juízo ideal é aquele em que crença verdadeira e emoção apropriada se alinham, ideia que ele remonta a Aristóteles.
- David Ribeiro liga essa posição à ciência cognitiva e à filosofia da emoção contemporâneas, para as quais emoções têm componente afetivo e componente cognitivo.
- Sobre o desacordo moral, Sanke desmonta o argumento em três movimentos: distinguir desacordo sobre o princípio, desacordo sobre fato não moral (o caso do aborto, em que a divergência real é sobre quando começa a vida) e desacordo sobre a aplicação do princípio. Acrescenta que ciência também comporta desacordo (há quem negue que a Terra é esférica) e que o objetivista só precisa sustentar convergência entre pessoas bem informadas e livres de vieses.
- Traz como evidência empírica o estudo liderado por Oliver Scott Curry, publicado na Current Anthropology em 2019, com cerca de 60 sociedades, que identifica sete regras morais universalmente endossadas, ainda que com pesos diferentes conforme a região, e observa que Benites simplesmente não se engajou com esse dado.
- Sobre intuições, David expõe os cinco critérios de discriminação de Michael Huemer no artigo “Revisionary Intuitionism” (Social Philosophy and Policy, 2008): grau de inculturação, vínculo evolutivo direto, coerência intrapessoal, coerência interpessoal e presença de vieses cognitivos sistemáticos. O argumento é que critérios análogos já são aplicados à experiência perceptiva, e que intuições de maior imparcialidade merecem mais confiança que as de favorecimento tribal.
- Sanke acrescenta que intuição não vale por estar presente, e sim por sobreviver a escrutínio crítico e a derrotadores.
- O núcleo técnico da crítica está na leitura de Hume. O ouvinte Samuel Oliveira pediu a Benites as referências, e os apresentadores sustentam que a interpretação não cognitivista e emotivista de Hume é uma entre várias: James Chamberlain a defende, mas Rachel Cohon, David Norton e outros leem Hume como cognitivista ou até quase objetivista.
- Sanke expõe a alternativa de Simon Blackburn, o projetivismo quase realista, com a analogia das cores: a propriedade valorativa é projetada no objeto como o vermelho é projetado na coisa, o que autoriza falar como se o errado estivesse na ação, e aplica-se do mesmo modo à causalidade em Hume.
- Expõe ainda a leitura de Geoffrey Sayre-McCord, segundo a qual Hume é cognitivista: juízos morais são crenças, e crenças motivam apenas contingentemente, mediadas por paixões, o que preserva a tese da inércia da razão sem tornar o juízo moral não proposicional.
- Corrigem também a confusão entre três coisas distintas que Benites teria embaralhado, a falácia naturalista de Moore (questão de definição, não de inferência), a guilhotina de Hume (não se deriva dever de ser) e a falácia do apelo à natureza.
- Discutem se Moore e Derek Parfit são realistas robustos ou pluralistas ontológicos, com Parfit sustentando que verdades morais são necessárias como as matemáticas e funcionam como “reality makers”, e Meinong como precedente da distinção entre existir e subsistir.
- Sanke separa com cuidado o problema Frege-Geach, sobre como sentenças morais preservam significado quando embutidas em condicionais e em contextos não assertivos (“se mentir é errado, então enganar é errado”, dito por quem não emite emoção alguma), do dilema de Jørgensen, e considera que Benites não respondeu adequadamente ao primeiro.
- David lista os argumentos que diz terem ficado sem resposta: a indispensabilidade de verdades normativas irredutíveis de David Enoch, o argumento do pensamento desejoso de Cian Dorr, o caso do psicopata moral contra o internalismo motivacional, o argumento do progresso moral e o da fraqueza da vontade de Huemer, e o argumento dos companheiros de infortúnio de Terence Cuneo.
- Contra a associação entre realismo moral e teísmo, invoca as pesquisas PhilPapers de 2009 e 2020, de David Chalmers e David Bourget, que mostram maioria de filósofos ateus e ainda assim realistas morais.
- A parte final é pessoal: Benites acusa David de desrespeito e de ter reagido por três horas a um vídeo curto. David responde que conteúdo público existe para ser criticado e explica que chamou Benites de analfabeto funcional como inferência, não como xingamento, alegando ser a interpretação mais caridosa para o padrão recorrente de leituras erradas (sobre Hume, sobre Graham Oppy, sobre a inércia existencial, sobre uma objeção kantiana em William Rowe, sobre Duns Escoto e a teoria da participação em Tomás de Aquino), já que não quer atribuir má-fé. Sanke marca posição neutra e diz que seus comentários são apenas filosóficos.
- Mencionam ainda que Sanke deve publicar a tese e um artigo resumido na revista Primordium (UFU) por volta do início do ano seguinte, e que David traduz obras de Huemer, entre elas “Knowledge, Reality, and Value”, com autorização do autor.