a tese
David Ribeiro reage ao vídeo em que o católico Lucca Almeida (ele se apresenta na gravação como Lucas de Tomás) comenta o debate entre o ateu Edson Toshio e o canal O Apologeta, e o eixo da live é o problema da lacuna: mesmo concedendo os argumentos cosmológicos, falta um segundo estágio que ligue a causa primeira ao Deus do teísmo clássico e, depois, ao Deus cristão.
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o bloco sobre o problema da lacuna e o segundo estágio da teologia natural é o melhor material em português sobre o assunto que apareceu no radar, com referências checáveis (Schmid e Linford, MacDonald, Pawl) que servem direto a qualquer discussão sobre as vias tomistas.
O que foi dito
- Começa avaliando Toshio sem poupar nenhum dos lados: diz que ele melhorou (atribui isso à influência de Ari mais que à dele), mas que é alguém voltado para a retórica e para a plateia, que não lê os artigos enviados, não analisa premissas e continua em registro neoateísta, com postura pouco caridosa nos debates.
- Explica o gap problem como ele é chamado na filosofia analítica da religião e afirma que atinge vários, se não todos, os argumentos cosmológicos. Ancora isso em bibliografia conferível: Joe Schmid e Daniel Linford, no capítulo 2 de Existential Inertia and Classical Theistic Proofs (2021), apontam cinco ou seis non sequiturs na primeira via; Scott MacDonald, no texto sobre o argumento cosmológico parasitário de Aquino que o grupo dele traduziu no Pensar Naturalista, sustenta que a via depende de argumentos adicionais; e cita Daniel Shields na mesma linha.
- Sobre a segunda lacuna, entre o Deus filosófico e o Deus de uma religião particular, lista as pontes existentes: o caso dos fatos maximalistas da ressurreição em Lydia e Timothy McGrew, a abordagem de fatos mínimos de Gary Habermas, Licona e Craig (com a observação de que a tumba vazia tem adesão de uns 70%, não de 90 e tantos), a objeção de James Fodor, e, no registro de teologia natural, a via da equiparação de Raimundo Lúlio e o argumento de conveniência da encarnação, que foi exatamente o que Matheus Fugita usou contra Mateus Benites no canal do Antônio Miranda, debate que ele mesmo analisou em duas partes com Bruno Sunken. Considera todas essas pontes falhas, mas reconhece que existem.
- Concorda com o ponto central de Lucca contra Toshio: dizer “você provou um deus, não o Deus cristão” não desonera o ateu, porque a lacuna é problema do cristão enquanto a demonstração da existência de algum deus já é problema do ateu. Qualifica com duas ressalvas, que depende do contexto (há debates em que se supõe Deus por hipótese e se restringe o escopo) e que isso não é steelman, conceito que ele corrige para um espectador: steelman é fortalecer o argumento do oponente, não supor algo por hipótese.
- Dá razão a Toshio no ponto do descompasso entre modelos divinos: o Deus do teísmo clássico que Lucca endossa é absolutamente imutável, atemporal, impassível e simples, e não se encaixa bem no Deus bíblico que se ira, intervém, se relaciona e se encarna. Distingue isso do teísmo neoclássico, que é o modelo em que a maioria das pessoas de fato acredita.
- Critica o argumento modal escotista da tripla primazia que O Apologeta apresentou: pergunta qual o escopo da alegação de que é possível que algo seja produzível, se quantifica sobre todos os objetos concretos temporais ou sobre um subconjunto, e diz que no primeiro caso a alegação se torna ambiciosa demais e depende de uma epistemologia modal liberal, contra a qual ele defende ceticismo modal mitigado e empirismo modal.
- Faz o bloco mais didático da live explicando a distinção escolástica entre série acidentalmente ordenada e essencialmente ordenada: no primeiro caso o poder causal dos membros posteriores não deriva dos anteriores (avô, pai e neto, pois o pai gera mesmo com o avô morto), no segundo deriva (o microfone sobre a mesa, a mesa sobre o chão, o chão sobre a fundação).
- Corrige os dois lados na questão das falácias: Toshio erra ao dizer que toda falácia é formal e se reduz a non sequitur, mas Lucca também fica devendo, por desconhecer a lógica informal, em que falácias são violações de regras do discurso racional e não da forma lógica (petição de princípio, espantalho, ad hominem). Recomenda nominalmente Douglas Walton (Informal Logic: a pragmatic approach) e os verbetes de Leo Groarke e Hans Hansen na Stanford, e defende com exemplo que o ad hominem circunstancial pode ser razoável, como no caso de um antivacina sem credencial e com histórico de fraude.
- Rebate a acusação de cherry picking que Lucca faz a Toshio (cético com a escolástica, crédulo com a ciência) apelando à epistemologia do testemunho: é racional confiar em teorias paradigmáticas sustentadas por amplo consenso de especialistas mesmo sem percorrer a evidência primária, e o acordo amplo mais a conexão com as ciências aplicadas são indicadores de confiabilidade. Recusa a extrapolação de Lucca sobre corrupção científica, lembrando que o empreendimento não é centralizado, mas concede que o pessoal do design inteligente às vezes raciocina de fato como Deus das lacunas, ao contrário do que Lucca sugere com o exemplo de Lemaître.
- Em compensação, ele endossa a defesa de Tomás contra o deboche: diz que atacar Aquino sem domínio dos termos e pressupostos é espantalho, que ele é um dos grandes da filosofia ocidental, e exibe o volume de Michael Bruce e Steven Barbone sobre os 100 argumentos mais importantes da filosofia ocidental, onde as cinco vias são tratadas pelo tomista analítico Timothy Pawl. Mas acrescenta duas restrições contra Lucca: a maioria dos sistemas filosóficos está errada, porque são mutuamente incompatíveis, e a discordância razoável entre pares epistêmicos (termo que ele atribui a Graham Oppy) recomenda convicção moderada; e a desculpa do espírito da época para a escravidão natural e para a tese das mulheres como defeito não se sustenta, porque Aristóteles registra e combate a posição contrária e Rousseau já condenava explicitamente a escravidão, observação que ele credita a um vídeo de Pedro Ivo, lembrando que a ciência não é neutra em valores (axiologia da ciência).
- Lança um ataque que não aparece no vídeo comentado: se a causalidade eficiente está ausente da física fundamental, como sustentam físicos e filósofos da física contemporâneos em chave neorusselliana (cita artigo de Daniel Linford em revista de filosofia da ciência), então os princípios gerais de movimento e causalidade que permitem inferir uma causa primeira ficam bloqueados, e a rota inteira se fecha.
- Nos intervalos revela a própria posição e a agenda: é realista moral não naturalista e intuicionista, baseando a justiça em intuições racionalmente ponderadas à moda de Michael Huemer em The Problem of Political Authority (2013), contra contratualismo de Rousseau, Locke e Rawls e contra a democracia deliberativa de Habermas; tem debate marcado com Paulo Vítor no Spectrum, com os tópicos já enviados; prepara resposta ao vídeo de Benites sobre realismo moral (dilema darwiniano de Sharon Street, argumento da coincidência cósmica, Parfit, Cuneo e o instrumentalismo epistêmico de Kornblith); e lamenta a conversão de Joe Schmid ao catolicismo por exorcismos e milagres, concordando com James Fodor que ele se tornou a pessoa menos cética possível. Fecha dizendo duas vezes que está arrependido do react, por frustração com um interlocutor ateu que não se esforça para entender quem quer refutar.