a tese
David Ribeiro reage ao vídeo do apologeta cristão Paulo Vítor Siqueira e sustenta que votar nulo ou se abster não é irracional nem imoral, porque o dever de votar no menos pior pressupõe uma autoridade política que não foi justificada, e porque a irracionalidade racional do eleitorado (Caplan) somada à incerteza política (Tetlock, via Huemer) tornam impossível saber quem é o menos pior.
aprofundar
talvez
a bibliografia que ele mobiliza é séria e o ataque à premissa do dever político interessa diretamente a quem lê Romanos 13 como fundamento de obrigação cívica, mas são 95 minutos de live com muita repetição, pedido de doação no meio e um bloco final que é só reprodução de outro vídeo.
O que foi dito
- Ele enuncia os dois argumentos do oponente que vai atacar, o do paralelismo e o da disparidade, mais a premissa de fundo de que o eleitor tem um dever para com a nação de votar no candidato menos ruim.
- A primeira objeção é de ética aplicada e vale para o resto da live: a noção de dever para com a nação pressupõe autoridade política robusta, tese controversa que Paulo Vítor não argumenta. Invoca o anarquismo filosófico de Robert Paul Wolff (In Defense of Anarchism), Michael Huemer e, do lado cristão, Thomas Woods Jr., Leão Tolstói e Mário Ferreira dos Santos (mutualista, teísta clássico e protestante, detalhe que ele diz ser pouco conhecido), além de observar que teorias contratualistas, deliberativas à Habermas ou religiosas da autoridade precisariam ser defendidas, não supostas.
- Resume o argumento do paralelismo do adversário, o exemplo de um país que escolheria seu cônjuge entre três opções (90% ruim, 70% ruim, 50% ruim), e responde que a analogia é falsa porque a decisão eleitoral depende de uma gama de fatores que o eleitor não domina, inclusive no cenário de segundo turno.
- Aqui entra o núcleo empírico: a tese da irracionalidade racional de Bryan Caplan, da George Mason, apoiada na pesquisa SAEE de 1996 (cerca de 1.500 eleitores e 250 doutores em economia), publicada em artigo de 2001 e no livro The Myth of the Rational Voter (2007, com edição brasileira, O mito do eleitor racional). Mesmo controlando renda e escolaridade, a opinião do eleitorado divergia sistematicamente do consenso dos especialistas.
- A explicação que ele retoma: como o custo de votar mal é praticamente zero para o indivíduo e o benefício de votar bem é negligível, é instrumentalmente racional ser epistemicamente irracional, isto é, não buscar crenças verdadeiras sobre política (ele cita Richard Foley para a noção de racionalidade epistêmica) e se guiar por viés de confirmação, viés de status quo, favoritismo intragrupal e custo irrecuperável. E estende o mesmo incentivo aos políticos eleitos, que não precisam ser racionais porque o eleitorado não é, de onde conclui que políticas públicas ruins são o resultado esperado dos dois lados.
- O segundo pilar é a incerteza política, via artigo de Michael Huemer em louvor da passividade (2012), que mobiliza a pesquisa de longo prazo de Philip Tetlock sobre juízo de especialistas: previsões feitas com alta confiança falharam na maior parte dos casos, e os especialistas ficaram apenas pouco acima do acaso. A conclusão que ele tira é direta: se nem o especialista acerta, o eleitor leigo não tem como saber qual candidato será genuinamente o menos pior, e o argumento da disparidade desmorona por falta da premissa epistêmica.
- Aplicado ao Brasil de 2026, ele se recusa a prever: diz achar razoável que, se Lula for eleito, sofra golpe, e que Flávio Bolsonaro é incógnita, podendo ser frouxo na linha do pai ou se perpetuar com a bancada bolsonarista eleita. Observa ainda que o escândalo do banco Master, pela associação da imagem de Lula com Alexandre de Moraes e o STF, fortaleceu muito o discurso bolsonarista e fez parte do público ver Jair Bolsonaro como injustiçado.
- Nas respostas ao chat, repete que a objeção de que o abstencionista deixa a decisão nas mãos de outros não procede, porque o voto individual não decide nada e a maioria decidiria de todo modo, e deixa claro que não militariza contra o voto: quem quiser votar, vote, inclusive anarquistas que estão fazendo voto tático em Lula.
- Na última meia hora ele exibe e endossa um vídeo do anarquista Binho Silver, que percorre os casos históricos para negar que o voto barre o fascismo: Espanha de 1936 (Manuel Azaña eleito, golpe de Franco meses depois), Chile (Allende em 1970, Pinochet em 1973), Portugal 1926, Argentina 1976, Turquia 1960, Brasil 1964 com João Goulart, e a chancelaria de Hitler em 1933 usando os mecanismos legais. A tese do vídeo é que o fascismo é função da estrutura de poder (grande empresariado, elite agrária, forças armadas, custo internacional) e não do resultado eleitoral, e que o golpe de Bolsonaro falhou por falta de adesão estrutural, não porque Lula venceu.
- Binho encerra defendendo organização, greve e pressão direta em vez de aposta no voto, com o exemplo da privatização do rio Tapajós assinada pelo governo Lula e barrada por ocupação e protesto, e David conclui que, somando Caplan e Huemer ao argumento dele, o voto fica praticamente inútil e pode até piorar as coisas. Fecha dizendo que não vota, que não aceitará culpa por eventual vitória de Flávio, que é realista moral e considera ruim a justificação kantiana da autoridade política, remetendo ao debate de Huemer com Daniel Layman (grafia incerta), e indicando Jason Brennan (Against Democracy) na conversa com Alex O’Connor sobre o apelo autoritário das massas.