React/comentário ao vivo em que o ateu David Ribeiro e o filósofo Bruno Sankey (doutorando em filosofia da religião/metaética na UFU, com sanduíche em Oxford) analisam a parte 2 de um debate do canal Spectrum entre cristãos de esquerda (Filipe e o "teólogo mineiro" André, ligado à teologia da libertação) e ateus de esquerda (Misa e Michelle), sobre se o cristianismo é ou não inclusivo e sobre o secularismo; a leitura dos dois reatores é que os debatedores confundem sentidos de inclusivo/exclusivo e secularismo e sustentam teses históricas fortes com pouca evidência falseável.
talvez
O núcleo sobre subdeterminação exegética, exclusivismo/inclusivismo e teologia da libertação toca de perto os interesses do Bruno (exegese, filosofia da religião, cristocentrismo) e renderia uma análise avulsa focada, mas o formato é react longo (2,8h), oralizado e com áudio instável, então vale só extrair os argumentos de Sankey, não assistir integral.
O que foi dito
- O debate parte da fala de Michelle: o cristianismo “aplicado” na sociedade brasileira não é inclusivo (igrejas condenando LGBTs, deputados legislando contra minorias, crítica a assistencialismo/BPC), ainda que existam alas inclusivas; a ala que “venceu” e está no poder é a que discrimina.
- Sankey concede que, como generalização indutiva sobre o comportamento majoritário das denominações, a tese “o cristianismo em geral não é inclusivo” é razoável, mas nega que se possa totalizá-la como universal categórico, citando teologia da libertação e anglicanismo brasileiro espiritualizado como contraexemplos inclusivos.
- Sankey desdobra “exclusivismo” em vários sentidos distintos que os debatedores confundem: exclusivismo de revelação (só o cristianismo é guardião da encarnação do Verbo, contrastado com os avatares do hinduísmo), exclusivismo soteriológico (não há salvação fora de Cristo, João 14,6, com John Hick citado como via pluralista/inclusivista), exclusivismo de verdade e uma forma mitigada (as demais religiões são verdadeiras na medida em que concordam com o cristianismo), lembrando que toda comunidade religiosa exclui por disciplina eclesiástica (ex.: Fraternidade São Pio X, e o bordão inclusivo “pode ser gay, mas não promíscuo”).
- O trecho mais denso teologicamente gira em torno da subdeterminação exegética: o teólogo mineiro reconhece em tom de brincadeira que “o cristianismo verdadeiro é a teologia da libertação”, e os reatores apontam que ele precisa sustentar isso a sério para ter credibilidade, ilustrando a subdeterminação com o par trinitarismo/arianismo, infernalismo/aniquilacionismo/universalismo, calvinismo/arminianismo etc., todos defensáveis com os mesmos versículos.
- Sobre Paulo e homossexualidade, Misa argumenta que, embora não se possa fixar positivamente o que o autor “quis dizer”, uma exegese com critérios (método histórico-crítico, confirmação bayesiana de fundo, inferência à melhor explicação) permitiria ao menos excluir leituras impossíveis e afirmar que o texto não trata de “orientação” enquanto identidade moderna, pois esta não existia; Sankey pondera que essas ferramentas reduzem mas não zeram a subdeterminação.
- Sankey adiciona uma tese acadêmica própria: lendo a Bíblia de forma histórico-crítica, os textos não precisam concordar entre si, então toda teologia cristã (inclusiva ou conservadora) é forçada a selecionar textos-âncora e reinterpretar os divergentes, porque não existe “visão bíblica única”; critica também o uso solto da palavra “fé” por um dos debatedores conservadores.
- Um cientista político (falando no debate original, provavelmente Fabiano Santos, grafia incerta) situa historicamente a “questão de gênero” como pauta nuclear da identidade evangélica só a partir dos anos 1980-90 (Silas Malafaia e o projeto de “Brasil evangélico/avivado”), articulada ao antipetismo e ao discurso anticorrupção; André radicaliza acusando os movimentos cristãos hegemônicos de lógica “fascistoide” de criação do inimigo (LGBTs como “destruidores de família”, associação difamatória com pedofilia).
- O segundo tema é o secularismo: o lado cristão de esquerda sustenta que a separação entre poder religioso e político é um “mito da modernidade” e produto da exploração colonial, logo irrealizável na periferia latino-americana; Misa responde com o exemplo do ateísmo pré-colonial (o materialista indiano do séc. VI, provável referência a Chárvaka/grafia incerta, além de pensadores sírios e chineses) e ironiza a inferência com “se minha avó tivesse rodas seria bicicleta”.
- Sankey diagnostica que o impasse vem de os debatedores oscilarem entre três sentidos de secularismo (separação institucional Estado-religião; primazia do terreno sobre o transcendente; visão de mundo naturalista), sem se entenderem; e discorre longamente sobre epistemologia da percepção (subdeterminação, indeterminação da tradução de Quine, observação carregada de teoria, influência doxástica no âmbito pré-perceptivo, Jerry Fodor e modularidade) a propósito de um comentário de chat, além de discutir os limites da tese kuhniana de paradigmas fora de física/química.
- Ao final, David pressiona os cristãos de esquerda com o teste de coerência da sharia (aceitariam uma bancada muçulmana legislando pela lei islâmica?); a resposta deles é que o problema não é a fé do parlamentar mas a “ideologia violenta”, e Sankey rebate que fé e cosmovisão não se separam assim e que reforçar o sistema de crenças religioso dessas pessoas não ajuda a causa deles.