David Ribeiro sustenta que a crítica de Gustavo Machado à metafísica erra o alvo por generalizar a concepção clássica (o estudo do ser enquanto tal, das causas primeiras e do imutável) para todo o campo, ignorando que a metafísica analítica contemporânea expandiu o rótulo para problemas que nada têm de imutáveis.
talvez
o vídeo em si é resposta polêmica, mas o eixo interessa diretamente ao seu terreno: modalidade entra como problema central da nova metafísica, e o argumento de que a crítica antimetafísica mira uma concepção clássica que já não define o campo é exatamente o que você precisaria opor a quem descarta discussão modal em filosofia da religião; a palestra de Alfredo Freire citada vale mais que o react.
O que foi dito
- Reconstrói o argumento de Machado: com o florescimento da pólis grega, a comunidade se separa da ação direta de seus membros, a relação com ela passa a ser mediada e abstrata (a cidadania como atributo abstrato do indivíduo), e é essa transformação do público em universal que gera as questões metafísicas.
- Concede que Machado nega estar deduzindo a invalidade da gênese, mas fixa a interpretação caridosa do que ele afirma: que os arcabouços teóricos daquele contexto “não fazem sentido” em outros, o que Ribeiro traduz como não terem relevância epistêmica para explicar fenômeno algum.
- Usa a entrada “Metaphysics” de Peter van Inwagen na Stanford Encyclopedia of Philosophy para mostrar que não é mais possível definir metafísica pelo objeto: quem nega a existência de causas primeiras e coisas imutáveis está, hoje, fazendo alegação metafísica, e muitos problemas hoje metafísicos não têm relação com esses temas.
- Lista os problemas da chamada nova metafísica: modalidade, espaço e tempo, persistência e constituição (inclusive identidade pessoal ao longo do tempo), causação, liberdade e determinismo, o mental e o físico (qualia), e a metafísica social, esta última ligada à ontologia social de John Searle (grafia da legenda incerta).
- Remete à palestra de Alfredo Freire na Associação Ateísta do Planalto Central, dada no dia anterior à do próprio Machado, e à introdução de Pedro Ivo sobre a metafísica classicamente concebida, recomendando assistir por inteiro.
- Reproduz o trecho de Freire que desfaz a associação corrente entre ateísmo e antimetafísica: a metafísica não se reduz à teologia racional e funciona como arcabouço conceitual indispensável às ciências.
- No mesmo trecho, Freire contrasta proposição científica (a água ferve a 100 graus a 1 atm, verificável por observação) e proposição metafísica (todo evento contingente tem causa determinante, acessível só por análise conceitual, porque observá-la exigiria sair da realidade), e situa o problema das verdades necessárias independentes da cognição e das entidades matemáticas autônomas na discórdia entre Platão e Aristóteles sobre a existência autônoma das formas.
- Freire trata o positivismo lógico como o projeto mais importante do início do século XX justamente por ser a tentativa honesta e fracassada de eliminar a metafísica (e com ela o dogma), passando pelo predicado de existência em Mill e pelos trabalhos de Frege e Russell.
- Responde ao comentário de que apelar à metafísica expandida seria mudar de alvo: a nova metafísica incorporou problemas novos sem descartar os antigos, e o problema contemporâneo dos universais mantém conexão com o antigo problema da semelhança, de modo que a tese de Machado, por visar o empreendimento metafísico como um todo, atinge também a metafísica analítica reavivada pelo fracasso do positivismo lógico.