a tese
David Ribeiro e seu interlocutor sustentam que o argumento pró-vida de duas debatedoras pressupõe, sem defender, uma metafísica carregada (pessoa como substância racional dotada de alma), e que num debate ético isso é um ônus argumentativo mal cumprido.
aprofundar
sim
porque é filosofia da religião e ética aplicada com aparato técnico (identidade pessoal, hilemorfismo, Harman) do interesse direto do Bruno e boa para análise avulsa.
O que foi dito
- Reagem a um vídeo pró-vida (as debatedoras Michele e Taís, grafia incerta) que abre chamando o aborto de “assassinato de um bebê”, e apontam o problema de partir de conceitos moralmente carregados (thick concepts) que já embutem a conclusão.
- David distingue as questões de se o feto ou embrião é pessoa e de se matar uma pessoa é sempre impermissível, notando que a pessoalidade é a característica moralmente relevante para atribuição de direitos, mas o que a constitui é disputado.
- Argumenta que as debatedoras pressupõem pessoalidade desde a concepção com base numa teoria da alma (dualismo de substâncias ou hilemorfismo) e que caberia a elas o ônus de defender essa metafísica, que ateus e secularistas não endossam.
- Traz o argumento de Elizabeth Harman (referência a texto na Stanford Encyclopedia) do “futuro atual”: só fetos vinculados a pessoas atuais teriam status moral de pessoa, e abortos espontâneos mostram que a potencialidade real não basta.
- O interlocutor distingue dois sentidos de “vida humana”, a biológica (qualquer organismo da espécie, inclusive espermatozoide, óvulo ou zigoto) e a biográfica (sujeito de experiências, com consciência e interesses), sustentando que só a segunda fundamenta claramente o status moral.
- Percorre a história da animação tardia: Agostinho negava que o feto fosse vida humana e que o aborto fosse assassinato, Tomás de Aquino situava a alma racional por volta de 40 a 60 dias, e só no século XIX, com o DNA completo do zigoto, os biólogos católicos deslocaram a infusão da alma para a concepção.
- Respondem a um comentarista tomista sobre ato e potência, insistindo que definir pessoa como substância racional é metafisicamente carregado e mal se ajusta à biologia atual, que vê continuidade e graus de racionalidade entre humanos e outros animais, não ruptura.
- Divergem sobre o papel do convencimento: o interlocutor tende a relativizá-lo, mas David insiste que num debate de ética do aborto convencer o outro não é secundário, e que uma teoria muito controversa multiplica os flancos de objeção.