David Ribeiro (filósofo ateu) reage ao vídeo de conversão de Joe Schmid (canal Majesty of Reason, doutorando em Princeton) ao catolicismo, e sustenta que a conversão não tem força intelectual: apoia-se em relatos de milagres (eucarísticos, aparições marianas, padre Pio) que têm explicações naturalistas disponíveis não descartadas, e ignora a literatura sobre a ineficácia das orações intercessórias.
talvez
É filosofia da religião analítica de bom nível (ajuste fino, epistemologia modal, Draper, milagres bayesianos) diretamente no interesse do Bruno, mas é reação de um ateu com viés declarado e muitas divagações; vale mais como mapa de nomes e argumentos, e o próprio vídeo de Schmid seria a leitura primária mais rica.
O que foi dito
- David abre chocado, dizia esperar Schmid ir para o teísmo neoclássico (sem simplicidade divina absoluta, linha do próprio Schmid e Daniel Linford em “Existential Inertia and Classical Theistic Proofs”, 2021), não para o catolicismo que Schmid criticou a vida toda.
- No relato, Schmid narra sua trajetória: criado católico devoto, perdeu a fé no ensino médio via problema do sofrimento animal evolutivo e os novos ateus (Dawkins, Harris, Dennett), virou naturalista, depois agnóstico ao descobrir o canal Worldview Design de Joshua Rasmussen e os argumentos de contingência de Rasmussen e Alexander Pruss (livro “Necessary Existence”).
- David observa a ironia de Rasmussen ser panenteísta, idealista e universalista, crítico do teísmo clássico que Schmid agora abraça, e nota que a inclinação de Schmid ao teísmo neoclássico já aparecia na live dele com Alex O’Connor sobre o argumento ontológico.
- Contra o ajuste fino (que Schmid usa como dado central), David enumera objeções: a distinção de Linford entre ajuste fino como característica de teorias versus da realidade; o atualismo modal ramificado de Pruss; a hipótese do “stalking horse” de Alex Malpass (naturalismo aumentado que empata com o teísmo); e o requisito de evidência total de Paul Draper, que faria os dados específicos favorecerem o naturalismo.
- Sobre os milagres eucarísticos (Lanciano, Tixtla) que testam sangue tipo AB raro, David cita o texto de Stacy Trasancos resumindo os artigos forenses de Kelly Crews (imunologista católico), que mostra que antígenos A e B também surgem de bactérias contaminantes, tornando o “sangue divino” explicável por contaminação.
- Contra os milagres de cura por oração intercessória, David invoca o argumento de Brandon Thornhill-Miller e Peter Millican (European Journal for Philosophy of Religion, 2015): o “dilema do núcleo comum”, a meta-análise de 14 estudos e o estudo STEP de Herbert Benson (2006) em que pacientes cardíacos que sabiam estar recebendo oração pioraram (efeito nocebo).
- Sobre o padre Pio (que Schmid diz ter sido o argumento decisivo, via conversa de 4h com Ethan Muse, grafia incerta), David traz de seu interlocutor Francesco: cartas do padre Pio plagiadas da biografia da mística Gemma Galgani, e registro de compra de ácido carbólico por Pio, o que compromete a idoneidade dos estigmas.
- David acusa Schmid de assimetria metodológica: aplicou escrutínio rigoroso só aos milagres católicos e não a milagres de hinduísmo/budismo, e diz que respeitaria mais se ele tivesse alegado uma experiência religiosa pessoal em vez de posar de conversão puramente intelectual.
- David fecha prevendo que a “frota” de céticos (James Fodor, Alex Malpass, Daniel Linford) vai refutar o caso pró-catolicismo de Schmid, e critica o tom pretensioso dos planos dele logo após converter-se.