David Ribeiro e o convidado Bruno SK (grafia incerta), psicólogo e doutorando em filosofia pela UFU, reagem por oito horas à entrevista de Joe Schmid a Matt Fradd e concluem que as razões da conversão ao catolicismo são fracas: os argumentos filosóficos (harmonia psicofísica e ajuste fino) têm rotas de resposta naturalistas conhecidas, e o salto do agnosticismo a Roma se apoia em testemunhos de milagres que Schmid não investigou com o rigor cético que ele mesmo costuma exigir.
talvez
com recorte: a live é longa demais e desorganizada (termina às 3h51 da manhã, com futebol e Live Pix no meio), mas os blocos sobre epistemologia do testemunho de milagres, mariologia histórica e teodiceia da omissão dão material direto para uma análise avulsa do Bruno sobre o que a apologética católica contemporânea está de fato oferecendo como evidência.
O que foi dito
- David abre mostrando que o primeiro dominó de Schmid foi o argumento da harmonia psicofísica de Brian Cutter e Dustin Crummett (Oxford Studies in Philosophy of Religion), e responde com ceticismo modal mitigado e empirismo modal de Felipe Leon, com a tese dos poderes fenomenais (a dor já carrega o poder causal de repulsa) e com a saída de Graham Oppy via atualismo modal ramificado somado a fisicalismo de identidade de tipo.
- Bruno SK insiste que mera concebibilidade não é prova de possibilidade metafísica (caso da água como H2O, zumbi filosófico) e acrescenta que o mecanismo de prazer e dor é desalinhado na prática, já que a dor persiste muito depois de cumprir sua função, o que se espera no naturalismo e não num universo teísta.
- Os dois trazem Paul Draper e o livro de 2025 “Atheism and the Problem of Evil”, que a live vem lendo em capítulos: a “evidência da qualidade” da vida senciente (400 milhões de anos de sofrimento, 85 bilhões de animais terrestres mortos por ano) favorece o deísmo indiferentista ou estético sobre o teísmo nuclear, e o requerimento de evidência total impede a falácia da evidência suprimida.
- No ajuste fino, David expõe a distinção de Daniel Linford entre o sentido filosófico (o universo está ajustado) e o sentido dos físicos (a teoria é que está ajustada, o que é um vício teórico), discute constante cosmológica e axiarquismo, e mostra que Schmid repete contra o multiverso o mesmo argumento dos cérebros de Boltzmann que Sean Carroll já respondeu a William Lane Craig (o problema atinge alguns modelos, não todos).
- Bruno SK sustenta que o multiverso é ontologicamente mais parcimonioso que Deus, porque não introduz categoria ontológica nova, enquanto postular uma mente incorpórea obriga a explicar psicologia, volição e interação com o mundo físico dessa mente.
- A crítica metodológica é o eixo da live: Schmid teria redistribuído credências depressa, sem procurar o lado cético qualificado (Oppy, Alex Malpass, Linford, James Fodor), com a analogia do vendedor de carros aplicada a Cameron Bertuzzi, e David estranha que ele tenha ocultado do canal, por conselho do diretor espiritual, vídeos sem nada de escandaloso, como o debate Trent Horn contra Dustin Crummett sobre aborto, a live universalista sobre inferno eterno com Joshua Rasmussen e a exposição do argumento da evidência decisiva de Draper.
- Sobre os fenômenos demoníacos e o testemunho do psiquiatra Richard Gallagher (caso Julia, latim e grego fluentes, levitação), Bruno SK argumenta que a disjunção de Schmid é falsa (ou mentem, ou é verdade) porque testemunho sincero só estabelece o que a pessoa experimentou fenomenologicamente, e cita vieses, contágio psicológico coletivo, falsos positivos médicos e a ausência de revisão por pares ou ambiente controlado.
- Ambos apontam que exorcismos existem na Ásia muito antes do cristianismo, em terreiros de umbanda e em tradições indígenas, que os milagres de outras religiões estão subnotificados porque só a Igreja Católica documenta para canonizar, e que aceitar espíritos exige mais ceticismo, não menos, já que um asura ou preta poderia se passar pela Virgem Maria para afastar do hinduísmo verdadeiro.
- Bruno SK confronta as aparições (Zeitoun 1968 a 1971, Fátima, chagas do Padre Pio) com a Maria histórica: o nome aparece em uma única fonte independente (Marcos 6:3), Marcos 3:31-32 mostra a mãe julgando Jesus louco, os irmãos de Jesus só viram primos com Jerônimo no século IV e a virgindade se apoia em releitura de Isaías 7:14, de modo que a Maria dos videntes não é a Maria dos documentos mais antigos.
- Na reta final discutem o inferno (argumento anselmiano da dignidade infinita do ofendido, respondido por Marilyn McCord Adams e por Stephen Kershnar, contra o modelo de sofrimento em progressão geométrica de Cutter e o modelo de Jacques Maritain), o problema do mal (teísmo cético modesto de Schmid contra a analogia do pai reverso de Trent Dougherty, e a teodiceia da omissão de Cutter e Philip Swenson, com anjos omissos no processo evolutivo, que os dois classificam como péssima), e Bruno SK fecha dizendo que mesmo se todos os milagres católicos forem reais isso no máximo derruba o naturalismo, sem vindicar Roma, com o lembrete de que o próprio Jesus, em Mateus 7:22-23 e 24:24, nega que milagre credencie quem o realiza.